Eu queria saber dizer alguma coisa sobre a morte, mas não sei, nunca sei. Sempre recorro aos poetas. Hoje morreu um amigo, morreu cedo, morreu jovem demais, morreu depois de muito sofrimento. Fiquei pensando, enquanto tomava banho pra ir ao seu velório, em como ele deve ter sofrido e em como seus parentes, amigos e namorada sofreram junto durante a doença e o quanto ainda sofrerão agora depois de sua morte. E isso me comoveu bastante. Eu que nunca perdi ninguém muito próximo não sei dessa dor, mas fico imaginando que deve ser a maior que tem.
A Adélia Prado tem um texto que gosto muito, que fala de morte, das mortes em sua família. Deixo o texto dela aqui que é muito forte e bonito:
Quando minha irmã morreu eu chorei muito
e me consolei depressa. Tinha um vestido novo
e moitas no quintal onde eu ia existir.
Quando minha mãe morreu, me consolei mais lento.
Tinha uma perturbação recém-achada:
meus seios conformavam dois montículos
e eu fiquei muito nua.
Cruzando os braços sobre eles é que eu chorava.
Quando meu pai morreu, nunca mais me consolei.
Busquei retratos antigos, procurei conhecidos,
parentes, que me lembrassem sua fala,
seu modo de apertar os lábios e ter certeza.
Reproduziu o encolhido do seu corpo
em seu último sono e repeti as palavras
que ele disse quando toquei seus pés:
'Deixa, tá bom assim'.
Quem me consolará desta lembrança?
Meus seios se cumpriram
e as moitas onde existo
são pura sarça ardente de memória.
As mortes sucessivas – Adélia Prado
A Adélia Prado tem um texto que gosto muito, que fala de morte, das mortes em sua família. Deixo o texto dela aqui que é muito forte e bonito:
Quando minha irmã morreu eu chorei muito
e me consolei depressa. Tinha um vestido novo
e moitas no quintal onde eu ia existir.
Quando minha mãe morreu, me consolei mais lento.
Tinha uma perturbação recém-achada:
meus seios conformavam dois montículos
e eu fiquei muito nua.
Cruzando os braços sobre eles é que eu chorava.
Quando meu pai morreu, nunca mais me consolei.
Busquei retratos antigos, procurei conhecidos,
parentes, que me lembrassem sua fala,
seu modo de apertar os lábios e ter certeza.
Reproduziu o encolhido do seu corpo
em seu último sono e repeti as palavras
que ele disse quando toquei seus pés:
'Deixa, tá bom assim'.
Quem me consolará desta lembrança?
Meus seios se cumpriram
e as moitas onde existo
são pura sarça ardente de memória.
As mortes sucessivas – Adélia Prado

2 comentários:
Depois da nossa conversa ontem fiquei com isso em pensamento e pensando no teu percurso até o velório, na tristeza que as palavras não abarcariam depois...
como somos frágeis, meu deus!
Apenas compartilhando um ponto de vista, "emilianesticamente" falando (Emília, a boneca de pano do Monteiro Lobato), a morte é um assunto sem assunto talvez daí a dificuldade de dizermos algo, nos resta a reflexão e todo tipo de sentimento possível, ela gera assunto, mas enfim, é algo completamente desprovido de assunto..., e veja, não há contradição no que digo sobre...
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